Lado a lado e viviam o tempo do mesmo jeito.
No de cá os machados pendurados nas paredes e as facas encrustadas no assoalho botavam a casa em suspenso e os dedos encolhidos nas palmas das mãos, a fim de não dissipar a ordem das armas brancas que atiçavam o suicídio.
No de lá, a música. Inclinava-se elegante a agulha no vinil, deixando as vozes contra a parede e as bocas, a meio caminho de encontro, com o lábio superior seco e o inferior pecado, brilhando à luz das velas brancas que preenchiam os vãos das coisas, que a fé era pouca.
Lado a lado e as mortes eram as mesmas.
Aconteciam mansas sobre lençóis limpos que escapavam dos olhos espiando pelas fechaduras. Emanavam, pelas frestas das janelas, jasmins engarrafadas ao invés dos humores dos corpos, que carregavam o podre da mácula não cometida - a pior - que a ninguém convinha cheirar.
Cá, eles mantinham a cabeça baixa enquanto um dorso nu buscava outros, drenando das peles carentes um suor de intempérie fraca e incompetente, capaz menos de calor do que de medo.
Lá, cobertos com peças opacas de algodão, eles escondiam vergonhas e intentos que lhes pareciam impossíveis, mas dos quais de alguma forma a música os convencia.
Lado a lado e jamais chegaram a se tocar.