sexta-feira, 25 de maio de 2012

é fácil falar das estrelas, do brilho dos corpos, da grandeza.
do coração que la-te-ja.
do que não vem, de saudade,
do que a tez en-te-sa.

das meninas dos olhos que se perdem em vácuo a cada vez que...
das meninas que arfam.

mas eu só quero é que fales o que achas. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012


não quero mais palavras delicadas.

quero gente de carne e osso, mais carne que osso. quero meu coração de músculo. músculo é feio? músculo pulsa interminável, forte, fraco. até fraco ele tem tudo que é meu. todo pensamento, que é sentimento, que é rancor, que é sentimento calcificado. massa vermelha e fétida que reage... QUE REAGE!

não quero mais palavras delicadas.

não quero odes ao deus que não dá, não quero utopia, não quero rimas sem razão de ser, não quero o amor bonito, como fosse tudo. tudo é belo.  tudo é belo só quando NADA é.  o belo é contraponto do feio.

não quero a beleza extinta.

não quero mais palavras delicadas, momentos de jardins de apartamento e cristais no pescoço.

quero suor, quero neblina.


quero gotas de humores que ainda podem formar arco-íris.


tem limo.
é o limo que não deixa a cidade despontar.

só aponta superficial e mansa:
"ca-da-coi-sa-em-seu-lu-gar"

sexta-feira, 13 de abril de 2012

"o comportamento do sistema é caótico, 
mas a equação que sustenta o caos é ordenada."

(marlene fontoura)



Tive que abrir as janelas que dão para o jardim da frente da casa e sentir as cortinas puídas deixarem nas pontas dos meus dedos gelados e secos o sinal condenado do tempo do acúmulo do que some indiscriminadamente palpavelimpalatável tingido de vermelhos vinho-veludo agredido por toques pervertidos suaves cíclicos como são a noite e o dia – abertos à noite – quando me deitava com ele na mancha de luz do chão da sala de estar
estar
A respiração cortante da mulher ao lado
Quem passou por aqui?
Por que é a respiração dela que eu escuto vindo de você?
estar
Tive que abrir as portas que davam para o jardim do fundo da casa a casa a casa bambabalada dançando com a barriguinha de fora minha casa minha pequena dançando (des)coberta debaixo de mim
                        de mim
                              de mim
O impacto era na horizontal
ABRE OS OLHOS, SEU FILHO
na puta desavergonhada

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

aborto.


Quando o tempo a comia, toda sexta-feira de manhã, a vida inteira deixava de frescuras, subia num salto e ameaçava se tirar. Não dela, mas dali e de lá, onde mal resistia aos assaltos de fúria que a faziam com cortes na boca e nas coxas desde o nascimento - também os órgãos do sexo estéreis e o intestino curto que tentava se esticar.

Fazes ideia do que é nascer já com deformações? Se nasce já doendo e vem uma raiva, a mãe quase não pode ter filhos de novo de tanto que é espancada de dentro. Se nasce coberta de muito mais sangue, engasgando carne na garganta e nas pontas dos dedos sem unhas, cravadas uma a uma no canal vaginal em vai-e-volta, que a luta não é para sair, mas para ficar. A mãe nunca mais é a mesma.

A mãe é comida pelo tempo toda sexta-feira de manhã.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

verão

Se houvesse sabido que em menos de um dia era capaz de afundar tão fundo na areia, não teria escapado. Antes, deixar-se-ia estar parado frente ao mar imenso, com os olhos fechados para arregaçar-se e arrancar do corpo, feito em pedaços ligados ruidosamente por sangue, nata e músculo malhado, um ínfimo de sinceridade louca que o fizesse valer inteiro e recompusesse os braços, para que as mãos pudessem de novo ousar tocar aqueles que um dia amara com tanto esforço, glória e a indiferença insensata da qual nunca conseguira se livrar.

Se houvesse sabido, deixar-se-ia enterrar perto das pedras quebradas que se acumulavam nas margens da praia, que nem os ventos mais fortes tiravam do lugar. Teria sido engenhoso o modo como seus pedaços se distribuiriam tortos entre aquelas formas tortas, fundindo-se à paisagem e apodrecendo como que sem se percebesse, lentamente durante o dia e, à noite, entorpecidos pela doçura do luar dos dias de céu limpo. Houvessem ainda dias de céu limpo, que já não lhe pareciam mais sequer prováveis na sua lógica matemática e fria de morto, por mais que sentisse a bexiga e o coração ainda quentes.

Arrebatava-lhe a curiosidade da morte, a única coisa que lhe restava de natural. O pulso já não lhe pertencia quando se deu conta dos gestos mecânicos e contraditórios que haviam se tornado para ele o próprio conceito de vida. A bacia. A bacia foi o primeiro lugar em que a temperatura caiu, deixando desengonçados os movimentos das pernas. Daí à vergonha de andar foi um pulo. Certeiro, quebrou as tíbias e perdeu os pés do chão, num voo do avesso.  De uma hora para outra, virou tronco, quando a cabeça já pesava demais e um tronco, só, não a aguentaria.

Morrer era confortável como poder decidir cortar a respiração.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

mesmo quando você é só pensamento, eu consigo ouvir a desgraça do pensamento que você é.

Vivia entre migalhas de pão e salvas de palmas essa nossa maria.
Maria guerreira, maria atriz.
Pelos outros, para os outros, com...
Sozinha.
Maria, mãe de nada. Nunca seria.
Maria de verdade.
Nossa senhora lidava com o inesperado da fome de tudo –
que não se acostumava:
Maria de osso e carne imaginária.
Sôfrega, insana, serva.
Ah!
Fosse Maria...
Seria a mais maria de todas:

                                             Se chorar revela falta de gosto pela vida, me desculpe. Nasci culpada se assim for, com as mãos encaracolando os cabelos da franja e a ignorância de não saber onde se está. Se algo revela, que me revelem a ele, que já não posso discernir as cores do tapete da sala e tudo se encontra num estado de latência fétida. Se assim sou porque assim nasci, restam-me horas vagas e não tenho com que preenchê-las. O mundo não lhe parece completo demais, às vezes? Até a boca.

Eu sou a que faz vazar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

mora ao lado.

Lado a lado e viviam o tempo do mesmo jeito.

No de cá os machados pendurados nas paredes e as facas encrustadas no assoalho botavam a casa em suspenso e os dedos encolhidos nas palmas das mãos, a fim de não dissipar a ordem das armas brancas que atiçavam o suicídio.

No de lá, a música. Inclinava-se elegante a agulha no vinil, deixando as vozes contra a parede e as bocas, a meio caminho de encontro, com o lábio superior seco e o inferior pecado, brilhando à luz das velas brancas que preenchiam os vãos das coisas, que a fé era pouca.

Lado a lado e as mortes eram as mesmas.

Aconteciam mansas sobre lençóis limpos que escapavam dos olhos espiando pelas fechaduras. Emanavam, pelas frestas das janelas, jasmins engarrafadas ao invés dos humores dos corpos, que carregavam o podre da mácula não cometida - a pior - que a ninguém convinha cheirar.

Cá, eles mantinham a cabeça baixa enquanto um dorso nu buscava outros, drenando das peles carentes um suor de intempérie fraca e incompetente, capaz menos de calor do que de medo.

Lá, cobertos com peças opacas de algodão, eles escondiam vergonhas e intentos que lhes pareciam impossíveis, mas dos quais de alguma forma a música os convencia.
 
Lado a lado e jamais chegaram a se tocar.